A segunda semana de junho de 2026 consolidou um padrão que analistas vêm observando desde o início do ano: crescimento econômico moderado convivendo com inflação acima da meta, concentrada em setores que respondem lentamente à política monetária. Os dados divulgados pelo IBGE e as atas do Copom publicadas nesta semana reforçam essa leitura.

Inflação: desaceleração com ressalvas

O IPCA de maio, divulgado na terça-feira, registrou alta de 0,32%, abaixo das expectativas do mercado, que projetavam 0,38%. No acumulado de 12 meses, a inflação recuou para 4,6%, aproximando-se da meta de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual. A boa notícia, porém, veio acompanhada de um detalhe preocupante: o grupo de serviços subiu 0,55%, puxado por passagens aéreas, educação e planos de saúde.

Economistas consultados pelo Sumário apontam que a desinflação nos alimentos — queda de 0,12% no mês — mascarou a persistência nos serviços, setor sensível à demanda e ao mercado de trabalho aquecido. “Enquanto a renda do trabalhador formal continuar crescendo acima da inflação, os serviços terão espaço para repassar custos”, resume Fernanda Alves, economista-chefe de uma consultoria independente.

PIB e projeções revisadas

O Banco Central divulgou nesta semana o Relatório de Inflação trimestral, que revisou a projeção de crescimento do PIB para 2026 de 2,1% para 2,4%. O ajuste reflete a performance do setor de serviços no primeiro trimestre e a retomada gradual da indústria, especialmente nos segmentos ligados à infraestrutura e energia.

“O Brasil cresce perto do potencial, mas o potencial em si não é alto o suficiente para resolver problemas estruturais de produtividade.” — Relatório de Inflação, junho de 2026

A agropecuária, que havia puxado o PIB para baixo no ano anterior, apresentou recuperação pontual com a safra de inverno. Já o varejo mostrou sinais de moderação: as vendas no comércio ampliado cresceram 0,4% em maio, desacelerando em relação aos 1,2% de abril. O consumo das famílias segue sustentado pelo emprego, mas o crédito consignado e o financiamento imobiliário perderam fôlego.

Mercado de trabalho resiliente

A taxa de desocupação permaneceu em 7,1% no trimestre encerrado em abril, segundo o IBGE. O mercado formal criou 187 mil vagas em maio, segundo dados do CAGED, com destaque para construção civil, tecnologia e saúde. A massa salarial real acumula alta de 3,8% em 12 meses — o que explica, em parte, a resistência inflacionária nos serviços.

Para o Banco Central, o mercado de trabalho é hoje o principal canal de transmissão da atividade para os preços. Na ata da última reunião do Copom, publicada na quarta-feira, o colegiado sinalizou cautela: “A combinação de emprego forte e inflação de serviços persistente limita o espaço para cortes de juros no curto prazo.”

Selic e expectativas

A taxa Selic permanece em 11,25% ao ano desde março. O mercado financeiro, em pesquisa Focus divulgada na segunda-feira, manteve a mediana para o fim de 2026 em 10,75%, mas elevou a projeção de IPCA de 4,3% para 4,5%. O câmbio operou em relativa estabilidade, com o dólar cotado entre R$ 5,42 e R$ 5,48 durante a semana.

Investidores estrangeiros continuam líquidos compradores na B3, atraídos pela taxa de juros real e pela perspectiva de crescimento. Por outro lado, a curva de juros longa subiu levemente, refletindo incertezas fiscais ligadas à tramitação de projetos no Congresso — tema que abordamos em nosso resumo político desta edição.

O que observar na próxima semana

Na agenda econômica dos próximos dias, destacam-se a divulgação do IBC-Br (índice de atividade), dados de produção industrial de maio e a reunião do Conselho Monetário Nacional. Analistas esperam confirmação da desaceleração gradual, mas sem reversão do cenário de juros elevados no horizonte próximo.

Em síntese: a economia brasileira avança, porém em ritmo insuficiente para gerar alívio inflacionário amplo. O emprego protege o consumo; os serviços pressionam os preços; e o Banco Central permanece em postura vigilante. É um equilíbrio instável — e, por enquanto, o mais provável é que se mantenha.